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Lira Marques e o Vale do Jequitinhonha: a artista que transformou a memória de um povo em arte

  • Foto do escritor: Igor Kalassa
    Igor Kalassa
  • 13 de jul.
  • 13 min de leitura

Existem viagens que nos levam a lugares extraordinários.

Outras nos levam ao encontro de pessoas extraordinárias.

Conhecer Maria Lira Marques foi um pouco dos dois.

Ao longo das minhas viagens pelo Vale do Jequitinhonha encontrei paisagens que impressionam pela beleza, cidades que preservam séculos de história e artistas capazes de transformar a simplicidade da vida cotidiana em obras admiradas no Brasil e no exterior. Mas poucas experiências foram tão marcantes quanto atravessar o portão da casa de Lira.

Não era apenas uma visita.

Era a oportunidade de conhecer alguém que dedicou a vida inteira a preservar a memória de um povo.

A casa onde vive, em Araçuaí, não impressiona pelo tamanho nem pela ostentação.

Seu verdadeiro valor está nas histórias que abriga.

Lira Marques
Lira Marques

Ali, cada parede parece guardar lembranças.

Cada obra parece continuar uma conversa iniciada há décadas.

Cada objeto revela um pouco da trajetória de uma mulher que nunca separou arte, cultura e vida.

Fui recebido com a mesma simplicidade que encontrei em tantas pessoas do Vale.

Logo nos primeiros minutos percebi que aquela não seria uma visita convencional.

Lira não começou mostrando suas obras mais famosas.

Também não falou de exposições ou prêmios.

Começou contando histórias.

Histórias de pessoas.

Do Vale.

Da infância.

Da mãe.

Do barro.

Da música.

Era impossível não perceber que sua arte nasce muito antes de chegar às mãos.

Ela nasce da escuta.

Muito além da cerâmica

Durante muito tempo, o Brasil conheceu Lira Marques principalmente por suas esculturas em barro.

E não é por acaso.

Suas máscaras, bustos e figuras humanas conquistaram um lugar de destaque na arte popular brasileira pela força de sua expressão, pela identidade profundamente brasileira e pela capacidade de reunir influências indígenas, africanas e da religiosidade popular em uma linguagem absolutamente própria.

Mas limitar Lira à cerâmica seria reduzir enormemente sua importância.

Ela é escultora.

Pintora.

Pesquisadora.

Musicista.

Contadora de histórias.

Colecionadora de memórias.

Guardiã da tradição oral.

Ao longo da conversa compreendi que todas essas atividades fazem parte de uma única missão.

Preservar aquilo que o tempo insiste em apagar.

Foi justamente essa sensação que mais me marcou.

Enquanto muitas pessoas dedicam a vida a criar algo novo, Lira passou décadas impedindo que histórias antigas desaparecessem.

Uma infância moldada pela simplicidade

Maria Lira Marques nasceu em Araçuaí, em 1945.

Filha de um sapateiro e de uma lavadeira, cresceu em uma época em que o Vale do Jequitinhonha possuía uma realidade muito diferente da atual.

As ruas ainda eram de terra.

A iluminação pública era escassa.

As crianças aprendiam cedo o valor do trabalho.

A infância acontecia muito mais nas calçadas, nos quintais e às margens do rio do que dentro de casa.

Foi nesse ambiente que nasceu sua curiosidade.

Enquanto o pai consertava sapatos, pequenos pedaços de cera de abelha utilizados no trabalho despertavam a imaginação da menina.

Ela começou a moldá-los com as mãos.

Provavelmente sem imaginar que aqueles gestos simples seriam o início de uma trajetória artística reconhecida muitos anos depois.

Ao mesmo tempo, observava atentamente a mãe modelando pequenos presépios de barro.

Talvez ali tenha surgido a primeira compreensão de que a arte não precisava estar distante da vida cotidiana.

Ela podia nascer dentro de casa.

Na cozinha.

No quintal.

Nas conversas de família.

Muito antes de frequentar museus, Lira aprendeu que a criatividade fazia parte da rotina das pessoas simples.

Quando o barro encontrou a imaginação

Como aconteceu com tantas mulheres do Vale do Jequitinhonha, o barro entrou em sua vida muito cedo.

Inicialmente, a produção seguia a tradição da região.

Panelas.

Potes.

Moringas.

Objetos destinados ao uso diário.

Mas aos poucos alguma coisa começou a mudar.

Lira passou a enxergar possibilidades que iam além da função utilitária da cerâmica.

Os rostos começaram a aparecer.

As figuras ganharam expressão.

As máscaras surgiram naturalmente.

O barro deixava de servir apenas às necessidades da casa para tornar-se linguagem artística.

Suas esculturas nunca procuraram copiar a realidade.

Pelo contrário.

Misturavam memórias, sonhos, religiosidade, personagens imaginários e referências ancestrais que pareciam existir muito antes da própria artista.

Ao observá-las de perto durante minha visita, tive a impressão de que nenhuma delas representava uma pessoa específica.

Representavam um povo inteiro.

Era como se cada rosto carregasse um pouco da história do Vale.

Os desenhos por trás das esculturas

Um dos momentos mais especiais da visita aconteceu quando Lira começou a explicar como criava.

Ideias que normalmente permanecem escondidos dos olhos do público.

Foi um privilégio raro.

Estamos acostumados a admirar apenas a obra pronta.

Poucas vezes temos a oportunidade de conhecer aquilo que acontece antes.

Enquanto Lira explicava como determinadas obras nasceram de pequenos traços feitos quase sem compromisso.

Outras permaneceram anos esperando o momento certo para ganhar forma.

Algumas jamais deixariam o papel.

Percebi então que a criação artística possui muito mais relação com observação do que com inspiração repentina.

As ideias amadurecem lentamente.

Crescem em silêncio.

Esperam.

Depois encontram o barro.

Ou o papel.

Ou a tinta.

Naquele instante compreendi que estava diante de algo muito maior do que um ateliê.

Era possível observar o pensamento de uma artista tomando forma.

Uma conversa que continua depois da visita

As horas passaram sem que eu percebesse.

A conversa seguia naturalmente, alternando lembranças da infância, histórias do Vale, comentários sobre arte, cultura popular e reflexões sobre o Brasil.

Em nenhum momento tive a sensação de estar entrevistando uma artista.

Era como conversar com alguém que dedicou toda uma vida a ouvir pessoas.

Talvez por isso suas palavras carreguem tanta serenidade.

Antes mesmo de conhecer em profundidade sua trajetória ao lado de Frei Chico, eu já havia entendido uma coisa.

Lira nunca produziu arte apenas para ser contemplada.

Sempre produziu para preservar.

Preservar memórias.

Preservar saberes.

Preservar histórias que dificilmente apareceriam nos livros.

E essa talvez seja sua maior obra.

Lira Marques ou Lira de Araçuai
Lira Marques ou Lira de Araçuai

Quando dois mundos se encontraram

Algumas parcerias nascem de interesses em comum.

Outras parecem acontecer porque simplesmente precisavam acontecer.

Foi essa impressão que tive ao conhecer a história de Lira Marques e do frade franciscano holandês Francisco van der Poel, conhecido por todos no Vale como Frei Chico.

Vindos de universos completamente diferentes, encontraram na cultura popular uma missão compartilhada.

Frei Chico chegou ao Brasil em 1968.

Poucos anos depois estabeleceu-se no Vale do Jequitinhonha.

Poderia ter seguido o caminho mais comum entre muitos pesquisadores: observar a cultura local à distância, registrá-la em livros e seguir adiante.

Escolheu exatamente o contrário.

Decidiu escutar.

Conviver.

Aprender.

Entender primeiro para interpretar depois.

Essa postura fez toda a diferença.

Ao invés de enxergar as cantigas, rezas e tradições do povo como simples manifestações folclóricas, passou a compreendê-las como parte da identidade viva daquela região.

Era a memória de um povo.

E memória não se estuda apenas em bibliotecas.

É preciso caminhar por onde ela acontece.

Foi nesse contexto que encontrou em Lira a parceira ideal.

Ela conhecia os caminhos.

Reconhecia as pessoas.

Sabia onde estavam os cantadores, as benzedeiras, os violeiros, os antigos moradores e aqueles que ainda preservavam tradições transmitidas de geração em geração.

Enquanto Frei Chico trazia o olhar atento do pesquisador, Lira oferecia algo impossível de aprender em qualquer universidade.

Ela pertencia àquele lugar.

Falava a mesma linguagem.

Compartilhava a mesma cultura.

E conquistava naturalmente a confiança das pessoas.

Uma pesquisa feita de encontros

Durante décadas, os dois percorreram comunidades espalhadas pelo Vale do Jequitinhonha.

Não viajavam em busca de monumentos.

Procuravam pessoas.

Sentavam-se em cozinhas.

Conversavam nas varandas.

Esperavam o café ficar pronto antes de ligar o gravador.

Escutavam histórias sem interromper.

Era um trabalho paciente.

Respeitoso.

Humano.

Pouco a pouco começaram a registrar um patrimônio que corria sério risco de desaparecer.

Cantigas de roda.

Batuques.

Benditos.

Modas antigas.

Cantos de trabalho.

Rezas contra o quebranto.

Simpatias.

Histórias contadas à luz de lamparinas.

Narrativas que nunca haviam sido escritas.

A cultura do Vale permanecia viva porque era transmitida pela voz.

Mas a tradição oral possui uma característica delicada.

Ela depende das pessoas.

Quando alguém parte sem compartilhar seus conhecimentos, uma pequena parte daquela memória também desaparece.

Lira e Frei Chico compreenderam isso antes que fosse tarde.

Cartaz de exposição de Lira Marques no museu de Araçuai
Cartaz de exposição de Lira Marques no museu de Araçuai

O caderno, o gravador e milhares de histórias

Durante uma das conversas, Frei Chico entregou a Lira um caderno.

Depois veio um gravador.

Pareciam objetos simples.

Mas mudariam completamente sua vida.

Ela passou a registrar tudo.

Cada música.

Cada conversa.

Cada informante.

Cada comunidade visitada.

Anotava nomes.

Datas.

Lugares.

Circunstâncias.

Nada era considerado pequeno demais.

Ao longo dos anos, o trabalho cresceu de forma impressionante.

Foram centenas de fitas cassete gravadas.

Milhares de páginas manuscritas.

Posteriormente datilografadas e organizadas com extremo cuidado.

Enquanto muitos pesquisadores limitam-se a reunir informações, Lira dedicou incontáveis horas à difícil tarefa de ouvir novamente cada gravação para transcrever palavra por palavra.

Imagino a paciência necessária.

Cada pausa.

Cada sotaque.

Cada expressão típica do Vale precisava ser preservada exatamente como havia sido pronunciada.

Mais do que produzir um arquivo, ela ajudava a conservar a identidade linguística da região.

Hoje sabemos que aquele esforço silencioso resultou em um dos mais importantes acervos sobre cultura popular do Vale do Jequitinhonha.

Um patrimônio cuja importância talvez ainda nem tenha sido totalmente compreendida.

Aprender valia mais do que receber

Uma passagem de sua história me chamou particularmente a atenção.

Em determinado momento, Frei Chico desejou remunerar Lira pelo trabalho que realizavam juntos.

Ela recusou.

À primeira vista, alguém poderia imaginar que fosse apenas um gesto de generosidade.

Mas suas próprias palavras revelam outra dimensão.

Ela dizia que já estava sendo amplamente recompensada.

Recebia livros de antropologia.

De sociologia.

De cultura popular.

De religião.

Recebia conhecimento.

Recebia confiança.

Recebia oportunidades para aprender.

Enquanto me contava essa história, pensei em como essa postura se tornou rara.

Vivemos em uma época em que quase tudo costuma ser medido apenas pelo retorno financeiro.

Lira enxergava outro tipo de riqueza.

Sabia que os livros, as conversas e a convivência com Frei Chico transformariam sua maneira de compreender o mundo.

E transformaram.

Sua arte passou a carregar não apenas beleza estética, mas também uma profundidade cultural construída ao longo de décadas de pesquisa.

A música que preserva a memória

Desse encontro nasceu também o Coral Trovadores do Vale.

Criado em 1971, o grupo não tinha como objetivo apenas realizar apresentações musicais.

Funcionava como um espaço onde as canções recolhidas durante as pesquisas voltavam a ganhar vida.

Lira tornava-se intérprete das músicas que ouvira desde a infância.

Canções que sua mãe cantava em casa.

Melodias que pareciam comuns para quem vivia na região, mas que, pouco a pouco, deixavam de ser transmitidas às novas gerações.

Ao ouvi-las novamente durante os ensaios e apresentações, muitos moradores reconheciam fragmentos da própria infância.

Era como reencontrar uma parte esquecida da memória.

Talvez essa tenha sido uma das maiores contribuições de Lira e Frei Chico.

Eles não retiraram a cultura popular de seu contexto para colocá-la em uma vitrine.

Fizeram exatamente o contrário.

Mantiveram-na viva entre as pessoas.

Um museu que continua respirando

Toda essa trajetória acabou encontrando uma espécie de casa permanente.

O Museu de Araçuaí.

Muito mais do que um espaço expositivo, ele representa a materialização de décadas de pesquisa, convivência e respeito pela cultura do Vale.

Ali estão reunidos objetos do cotidiano, fotografias, documentos, peças sacras, gravações, instrumentos e inúmeros registros produzidos ao longo dessa caminhada.

Mas o que mais me agrada naquele museu é justamente o fato de ele não parecer um lugar onde a cultura foi guardada para sempre.

Ela continua acontecendo.

Estudantes visitam o espaço.

Oficinas são realizadas.

Moradores participam de encontros.

Manifestações populares continuam encontrando ali um lugar para existir.

É um museu vivo.

Talvez porque tenha sido criado por pessoas que sempre entenderam que cultura não pertence ao passado.

Ela acontece todos os dias.

Ao deixar o museu, tive a impressão de compreender um pouco melhor a verdadeira dimensão da obra de Lira Marques.

Suas esculturas são extraordinárias.

Seus desenhos também.

Mas talvez sua maior criação tenha sido ajudar um povo inteiro a reconhecer o valor da própria memória.

Quando a terra se transforma em cor

Durante muitos anos, o barro foi a principal matéria-prima de Lira Marques.

Foi nele que nasceram suas máscaras, bustos e esculturas que hoje integram importantes coleções brasileiras. Mas, como acontece com muitos artistas, a própria vida acabou indicando novos caminhos.

Na década de 1990, problemas de saúde passaram a dificultar o trabalho pesado exigido pela cerâmica. Modelar peças, transportá-las e acompanhar todo o processo de queima já não era tão simples quanto antes.

Seria natural imaginar que aquela limitação diminuísse sua produção artística.

Aconteceu exatamente o contrário.

Lira apenas mudou de linguagem.

Se antes transformava a argila em esculturas, passou a transformar a própria terra do Vale em pintura.

Recolhendo diferentes tonalidades de barro nos barrancos da região, descobriu que a natureza oferecia uma paleta de cores muito mais rica do que qualquer tinta industrial poderia reproduzir. Vermelhos, ocres, amarelos, marrons e cinzas passaram a compor um universo visual absolutamente particular.

Foi dessa pesquisa que nasceram seus famosos Bichos do Sertão.

Não são animais que existem exatamente como aparecem nas telas.

Também não pertencem apenas à imaginação.

Parecem surgir de algum lugar muito mais antigo.

Ao observá-los de perto tive a impressão de estar diante de imagens ancestrais, quase rupestres, como se dialogassem com as primeiras manifestações artísticas da humanidade.

São figuras que não procuram representar a natureza.

Procuram representar aquilo que sentimos diante dela.

Cada traço parece carregar milhares de anos de memória.

Cada textura lembra a própria superfície das pedras, da terra seca e das serras do Vale do Jequitinhonha.

Talvez por isso suas pinturas transmitam uma sensação tão difícil de explicar.

Elas parecem antigas e contemporâneas ao mesmo tempo.

Uma artista que nunca parou de aprender

Ao longo da conversa, uma frase ficou gravada na minha memória.

Lira dizia que ninguém aprende sozinho.

É preciso observar.

Perguntar.

Escutar.

Ter curiosidade.

Experimentar.

Essa ideia parece simples.

Mas talvez explique toda a sua trajetória.

Ela aprendeu observando a mãe.

Aprendeu conversando com artesãos.

Aprendeu viajando pelo Vale ao lado de Frei Chico.

Aprendeu lendo livros de antropologia, sociologia, religião e cultura popular.

Aprendeu visitando museus durante sua viagem à Holanda.

E continua aprendendo até hoje.

Poucos artistas conseguem manter viva essa curiosidade depois de tantas décadas de reconhecimento.

Na casa de Lira tive a impressão de encontrar exatamente isso.

Uma artista que nunca deixou de ser aprendiz.

Talvez seja essa humildade intelectual que permita que sua obra continue evoluindo.

O privilégio de ser recebido

Existem artistas cujas obras admiramos sem jamais conhecer quem as criou.

Com Lira acontece exatamente o contrário.

Ter a oportunidade de entrar em sua casa, ouvir suas histórias e vê-la mostrar seus desenhos, seus estudos e suas ideias ainda em construção é um privilégio difícil de descrever.

Enquanto muitas galerias apresentam apenas a obra finalizada, Lira faz questão de compartilhar também o caminho percorrido até ela.

Mostra os primeiros traços.

As experiências.

As dúvidas.

É como se abrisse ao visitante uma pequena janela para dentro do seu processo criativo.

Poucas experiências são tão generosas.

Ao final da visita, compreendi que conhecer o museu de Araçuaí é fundamental para entender a dimensão de seu trabalho na preservação da cultura popular.

Mas conhecer sua casa é outra experiência.

É conhecer a artista.

É perceber que sua obra não termina nas esculturas nem nas pinturas.

Ela continua na maneira como recebe as pessoas.

Na forma como compartilha conhecimento.

Na disposição em conversar sem pressa.

Um presente inesperado

Antes de ir embora, tirei cuidadosamente da mochila um pequeno presente que havia levado comigo.

Era uma fotografia que fiz do litoral baiano, local que tenho muito apreço.

Por alguns instantes hesitei.

Ali, diante de uma mulher capaz de transformar terra em pigmentos, barro em esculturas e memória em arte, minha fotografia pareceu quase um gesto tímido.

Eu me perguntava se aquele presente faria algum sentido.

Mesmo assim, entreguei a imagem.

Lira a recebeu com um sorriso sincero.

Observou cada detalhe com atenção.

Segurou a fotografia por alguns instantes e agradeceu com um carinho que imediatamente desfez qualquer constrangimento que eu pudesse sentir.

Naquele momento percebi algo que jamais esquecerei.

Os grandes artistas talvez possuam uma qualidade rara.

Eles reconhecem a beleza antes de reconhecer a autoria.

Enquanto eu admirava sua extraordinária capacidade de criar universos inteiros a partir da própria terra do Vale, ela acolhia minha fotografia com uma generosidade que me emocionou profundamente.

Foi uma lição de humildade.

E também de sensibilidade.

Os pássaros entenderam antes de mim

Durante toda a visita havia um detalhe que passava quase despercebido.

Os pássaros.

Eles circulavam livremente pelo quintal.

Pousavam nas árvores.

Cantavam próximos à casa.

Pareciam completamente à vontade naquele ambiente.

Em determinado momento comentei sobre isso.

Descobri então que Lira também cuidava deles com enorme carinho.

Talvez por isso permanecessem ali com tanta tranquilidade.

Sorri.

Percebi que compartilhávamos uma pequena paixão.

Quem gosta de observar aves costuma aprender, sem perceber, a desenvolver paciência.

Aprende a esperar.

A ouvir antes de procurar.

A respeitar o tempo da natureza.

Talvez essas mesmas qualidades estejam presentes também em sua arte.

Quando chegou a hora da despedida, olhei uma última vez para o quintal.

Os pássaros continuavam cantando.

A casa permanecia silenciosa.

As obras espalhadas pelo ateliê aguardavam pacientemente seus próximos capítulos.

Enquanto colocava a câmera no carro, pensei que fazia todo sentido.

Quem passou a vida inteira cuidando da memória de um povo naturalmente também aprende a cuidar da vida ao seu redor.

Muito mais do que uma obra de arte

Hoje uma criação de Lira ocupa um lugar especial em minha casa.

À primeira vista, ela é apenas uma bela obra de arte.

Mas, para mim, representa muito mais do que isso.

Sempre que passo por ela, não lembro apenas da escultura.

Lembro da artista.

Da conversa sem pressa.

Dos cadernos repletos de ideias.

Dos pigmentos retirados da própria terra.

Da generosidade com que recebeu um presente tão simples.

E, principalmente, do canto dos pássaros naquele quintal.

Algumas obras de arte decoram uma parede.

Outras continuam contando histórias muito tempo depois de voltarmos para casa.

Informações para quem deseja conhecer Lira Marques

A casa de Lira Marques está localizada em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais.

Se tiver a oportunidade de visitá-la, reserve tempo.

Não vá apenas para conhecer suas obras.

Vá para conversar.

Ouvir.

Perguntar.

Observar.

Sempre que possível, visite também o Museu de Araçuaí, criado a partir da parceria entre Lira e Frei Chico. Os dois lugares se complementam e ajudam a compreender a dimensão de um trabalho dedicado, durante décadas, à preservação da memória cultural do Vale.

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Perguntas frequentes

Quem é Lira Marques?

Lira Marques é uma artista popular brasileira nascida em Araçuaí, Minas Gerais. Ceramista, pintora, escultora e pesquisadora, é reconhecida por seu trabalho na preservação da cultura do Vale do Jequitinhonha.

Quem foi Frei Chico?

Francisco van der Poel, conhecido como Frei Chico, foi um frade franciscano holandês que dedicou grande parte de sua vida ao estudo e à preservação da cultura popular do Vale do Jequitinhonha.

O que são os Bichos do Sertão?

São pinturas criadas por Lira Marques utilizando pigmentos naturais retirados da terra do Vale. As obras apresentam animais imaginários inspirados na paisagem, na memória e na ancestralidade brasileira.

É possível visitar o Museu de Araçuaí?

Sim. O museu recebe visitantes e preserva um importante acervo relacionado à história, à religiosidade, à música e às tradições populares do Vale do Jequitinhonha.

Lira Marques ainda produz obras?

Sim. Lira continua produzindo pinturas e desenvolvendo novos trabalhos, mantendo viva sua pesquisa artística e cultural. Suas obras são vendidas através de galerias somente.

Sobre mim

Sou fotógrafo amador e apaixonado pela cultura brasileira, pela arquitetura histórica, pela natureza e pelas paisagens que ajudam a contar a história do nosso país.

Viajar, para mim, sempre foi muito mais do que conhecer novos lugares. É uma oportunidade de entender como as pessoas vivem, preservar memórias e descobrir histórias que muitas vezes passam despercebidas. As fotografias que produzo são apenas uma forma de guardar esses encontros e compartilhar um pouco da riqueza cultural e natural do Brasil.

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Todas as fotografias publicadas neste blog são de minha autoria e fazem parte do meu acervo pessoal.

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